Nascer


TEMPO CERTO PARA NASCER

Fernando Passos*

 

Emocionei-me ontem com a cena da neném achada em uma mata no Sul, enrolada no cordão umbilical, sob intensos frio e chuva. Bombeiros a levaram ao hospital, onde ela recebeu tratamentos de princesa, sendo batizada pelas enfermeiras com o nome Vitória. Mas o mais emocionante ainda estava por vir: as dezenas de pessoas que esperam por um filho através da adoção a correrem para o hospital a levar carinho e amor à Vitória.

 

Casei-me muito jovem. Com 23 anos eu e Rosângela tínhamos muitos planos. Ela dentista e eu advogado recém formados, sem casa própria e com um fusquinha na garagem tínhamos os sonhos de constituir família e vencer na vida. Dizia eu a ela: devemos esperar alguns anos pelos filhos. Deu tudo “errado”. Com menos de três anos já haviam nascido as nossas duas amadas filhas. “Deu tudo errado?”

 

Qual o tempo certo para nascer? Há casais tão felizes com filhos no início, no meio ou a qualquer tempo do casamento. O tempo certo para nascer é aquele determinado por Deus ou mesmo o tempo determinado por nós mesmos diante de nossos atos, para quem nele não acredita. A gravidez é sem dúvida a essência primeira da vida, o novo ser humano que brota dentro de nós mesmos, gerados como fomos gerados é o nosso próprio renascimento que ali ocorre. Filho não é e não pode ser considerado estorvo, inconveniente, ou atraso em planos de vida; a vida nova que nasce transcende nosso próprio ideal. Filho é para ser amado e se assim é ensinado saberá amar também. Em minha vida de amizades, ou mesmo profissional, já consegui evitar que algumas pessoas desesperadas praticassem o aborto. São depoimentos emocionantes em tempos posteriores de alegria, amor e agradecimento pelo conselho válido. Os traumas causados por aqueles que praticaram o aborto é muito maior do que aqueles que sofreram lesões pela prática do crime. Isso é saúde pública real.

 

Não há nada de religioso em proteger políticas públicas de proteção à vida desde a concepção. Isso é função do Estado laico: criminalizar qualquer tentativa contra a vida, da concepção ao seu declínio natural.

 

Aquele que pratica suicídio, quando frustrado o seu intento, também nos traz inúmeros problemas; são milhões de pessoas atendidas em hospitais com graves lesões pelo fato de não terem conseguido se matar. É um grave problema de saúde pública. Oficializaremos então ajuda para que se matem? Os médicos estarão autorizados a auxiliarem o suicida? É a mesma lógica do aborto, e neste a pessoa não opta! É prática criminosa, que jamais poderá ser oficializada por qualquer estado laico e, quando qualquer mãe desavisada o praticar, deveremos prestar-lhe assistência como o fazemos com o suicida, com a tentativa de homicídio, assim por diante.

 

Agradeço todos os dias ter “dado tudo errado” comigo, pois assim posso amar por mais tempo minhas filhas, convivendo mais do que eu planejava com as minhas crias, vivenciando mais emoções, mais sofrimentos e, acima de tudo, crescendo juntos e contribuindo com o florescer destas lindas vidas.

  

*Advogado e Professor da Uniara.

 



Escrito por Nascer às 17h54
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