Nascer


SOMOS, DESDE A CONCEPÇÃO

 

Ogeni Luiz Dal Cin*

 

A razão natural afirma que todos os seres contingentes desenvolvem-se a partir de suas próprias virtudes ontológicas internas. Contraria a razão o ter de aceitar que um ser se transforma noutro, de natureza ontológica diversa, durante seu próprio desenvolvimento intrínseco. No entanto, essa é a “lógica” do canhestro pensamento dos agentes do aborto de todos os matizes. Ousam chamar a esse ato de morte de um novo direito: o direito de matar.

 

Os agentes do aborto dizem acreditar, porque lhes falecem as forças da ciência empírica diante da questão do começo da vida humana, que não éramos “nada” de humanos, desde a concepção até um tempo incerto, a ser determinado. O problema que suscitam é o de definir cientificamente e com categoria, com seriedade e honestidade intelectual, quando começamos a ser humanos e o que éramos antes de sermos humanos. Os “achismos” cientificistas e as conseqüências da crise ética e axiológica que atravessamos não podem, jamais, ser aceitos como razões para matar pelo aborto, pois isso fere a própria razão do homo sapiens. Afinal, antes de sermos humanos, éramos o quê? – Adubo para o acaso produzir a vida? Lixo “humano” para ser jogado fora? Um ser indefinido, em estado indefinido, entre o puramente animal e o início do humano? É um material ainda não trabalhado pelo acaso que lhe daria uma vida humana? O que éramos entre a concepção e o momento em que nos transformamos em humanos? – Com a palavra os “abortistas”.

 

Para justificar o aborto, seus defensores precisam provar que aquele ser ainda não era humano e que era um parasita do corpo da mãe. Já quanto ao primeiro argumento, os próprios “abortistas” chutam vários tempos, confessam que não sabem o tempo verdadeiro, e, por isso, não são unânimes, discutindo dias, semanas e meses, sem qualquer certeza da linha divisória entre o humano e o não-humano. Os donos da verdade não encontram sua própria verdade e não cedem, diante do princípio universal da consciência humana, o direito da dúvida à vida.

 

O tempo para o início da vida torna-se variável, de acordo com os interesses casuísticos do momento, sendo, por isso, convencionado arbitrariamente, mas tendo sempre, como ponto de partida, a fecundação.

 

Continua:



Escrito por Nascer às 13h24
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Continuação:

 

Pretende-se, por essa via, diluir o qualitativo do humano no tamanho do ser corpóreo, fugindo do fundamento ontológico da vida humana. Assim, todas as posições filosóficas e teológicas são amornadas, relativizadas, “castradas”, empurradas para  o mundo individual e subjetivo, perdendo a força de suporte para os ordenamentos dessa sociedade. E o aborto é a decorrência dessa lógica.

 

A observação racional da realidade, feita por Aristóteles, que colheu também as informações do seu passado, ordenou e sistematizou, há mais de 2.300 anos, à luz natural da razão, os fundamentos da filosofia propriamente dita, que não pode ser desprezada por aventureiros do pensamento. Essa postura perpassa a história, recebendo, por volta de 1.200 d. C., a incomparável contribuição de Santo Tomás de Aquino, chegando, todo esse patrimônio espiritual, incólume, até nossos dias.

 

Refiro-me aos princípios de ato e potência, constitutivos de todo ser. Ato é a parte atualizada do ser, desenvolvida, pronta, aperfeiçoada, que atingiria sua plenitude. Mas, a plenitude do ser é transformar em ato puro toda a sua potência, o que não acontece com os seres finitos. Potência é a parte do ser que já é em si, mas ainda não se atualizou, porque dependente de tempo, circunstâncias, motivações, maturidade, esforço, vontade. Essencialmente, a potência não será, uma vez que já é. Em nenhum momento da vida, desde a fecundação até a morte natural, o ser humano passa a ser totalmente ato. Em momento algum o ser humano pode ser reduzido exclusivamente a se tornar só ato ou só potência. As características indeléveis de cada ser humano estão dadas em potência, na fecundação. Potência, significando a própria estrutura do ser, sendo já aquilo que se revelará ser mais tarde.

 

Quem ainda não existe, também não é potência. Não começamos a ser mais tarde, por alguma alquimia qualquer, nem por vontade de alguns que crêem apenas na ciência empírica e a ela tudo reduzem. Desde o início na concepção e até o fim da vida, seremos ato e potência, no todo, sempre um e único ser humano, idêntico a si mesmo.

 

Quem ama a vida humana não quer que ela morra. Quem não ama a vida, seleciona os que devem morrer antes de nascer. Se Moisés tivesse sido abortado, segundo as leis egípcias de então, os judeus estariam, quiçá, esperando ainda a passagem do mar Vermelho, a sua nova Páscoa, e a liberdade.

 

* O autor é advogado e filósofo 

 



Escrito por Nascer às 13h23
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Todos têm direito à beleza da vida e à esperança

 

O jornalista Leandro Beguoci, na Folha de São Paulo de 10 de maio, transcreveu as respostas do papa às perguntas dos jornalistas na entrevista coletiva dada no avião que vinha para o Brasil. O material é interessantíssimo, pois mostra o papa respondendo diretamente aos temas mais contundentes da visita.
O papa mostra o aborto como um problema de egoísmo ou de falta de esperança, e fala sobre a beleza da vida. Lutar contra o aborto implica, portanto, em ajudar todas as pessoas a recuperarem a beleza de suas vidas e a razão de sua esperança. Leia a íntegra da resposta:
BENTO 16 - Nossa busca pela vida vem desde o papa João Paulo 2º. Ele fez disso um ponto central de seu pontificado, fez uma encíclica que avançava já nessa mensagem de que a vida é um dom, e não uma ameaça. Nessas situações [legalização do aborto no México] há um certo egoísmo e, de outra parte, é uma questão de valor e beleza da vida. É nisso que está o futuro. Sobretudo a vida é bela. Isso não é uma questão da igreja, é um dom em si. Mesmo em condições difíceis, é sempre um dom recriar o reconhecimento desta beleza. Sobre o futuro, claro, pairam tantas ameaças, mas a felicidade é que Deus é sempre mais forte e presente no teatro da história, para que possamos dar, com confiança, a vida a um novo ser humano. A fé garante a beleza da vida. Podemos resistir a esse egoísmo e a esse medo, que está em algumas coisas dessas legislações.

 

Uma posição adequada para compreender a relação Igreja-Estado

 

Em meio a tantas discussões, paira a questão: ao condenar o aborto, a Igreja está se intrometendo em questões do Estado laico e que, portanto, não lhe competem? Em seu discurso de chegada, o papa explica: “A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente”. A própria excomunhão aos deputados pró-aborto no México deve ser entendida como a explicitação pública de uma opção pessoal desses deputados e não como uma interferência nas coisas do Estado. Quem é católico e favorece o aborto se distancia da Igreja, esse é o sentido da norma do Código Canônico.
Ainda sobre esse tema, explica o prof. Dalton Luis de Paula Ramos, professor de Bioética na USP e membro da Pontifícia Academia para a Vida do Vaticano: “A defesa da vida e a condenação do aborto feitas pelo papa não entram em choque com o caráter laico do Estado. Elas correspondem ao desejo mais profundo do coração do ser humano. Se confrontadas com seu desejo maior, as pessoas percebem que não desejam abortar, mas sim uma possibilidade de saída de uma situação angustiante, uma esperança. Quando a Igreja condena a tortura realizada pelas ditaduras, todos que vivem em democracias compreendem que se trata da defesa da dignidade das pessoas. A condenação do aborto segue a mesma lógica. Pode-se não concordar com as posições da Igreja em defesa da pessoa, mas não dizer que elas são uma intromissão indevida nas coisas do Estado”.



Escrito por Nascer às 20h58
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